Intenção — Outubro de 2026

Sacerdotes embaixadores da reconciliação e portadores da paz no mundo

Carta de Abertura de outubro — pelos sacerdotes, embaixadores da reconciliação e portadores da paz no mundo. Uma reflexão sobre o ministério da reconciliação, o testemunho de São José de Anchieta, do padre Alec Reid e de São João XXIII, e o convite do Papa Leão XIV a rezar o Rosário pela paz.

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Carta de Abertura

Ao Povo de Deus e a todos os homens de boa vontade,

Neste mês de outubro, rezamos pelos sacerdotes, para que sejam embaixadores da reconciliação e portadores da paz no mundo.

Quando olhamos para um sacerdote, o que vemos? Um homem consagrado a Deus para realizar as obras que Ele lhe confia. E, entre elas, há uma que São Paulo nomeia com clareza: "Tudo vem de Deus, que, por Cristo, nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação" (2Cor 5,18). E acrescenta: "Somos, pois, embaixadores de Cristo, e é Deus mesmo que exorta através de nós" (2Cor 5,20). O sacerdote é, por vocação, embaixador da reconciliação e portador da paz.

Em outubro de 2026, a Igreja inteira é convocada a rezar pela paz, pois em Lourdes, no dia 27 de setembro, o Papa Leão XIV convidou todos os fiéis a rezar o Rosário ao longo de todo o mês, para que cessem as guerras e a paz se estabeleça entre os povos em conflito. Ao acolher esse pedido, voltamos o olhar para a história da Igreja, que é memória viva, e nela recordamos homens consagrados a Deus que viveram o ministério sacerdotal em tempos de guerra e de ódio, deixando o testemunho de que a vida oferecida a Deus em oblação de amor constrói a paz. Contemplemos, então, três desses testemunhos, em épocas e lugares diferentes, o do padre Manuel da Nóbrega e São José de Anchieta, o do padre Alec Reid e o de São João XXIII.

No Brasil, por volta de 1563, os tamoios, com o apoio dos franceses, rebelaram-se contra a colonização portuguesa. O padre Manuel da Nóbrega decidiu ir ao encontro deles para ajudar a conter a revolta, levando consigo o jovem jesuíta José de Anchieta, que conhecia a língua tupi. Chegaram à aldeia de Iperoig, hoje Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. Para que as negociações prosseguissem, Anchieta ofereceu-se como refém, enquanto Nóbrega partia em busca dos acordos de paz. Durante cerca de cinco meses entre os tamoios, vivendo como cativo, sob ameaça de morte e testemunhando a execução de prisioneiros, fez a Nossa Senhora a promessa de escrever-lhe um poema e, segundo a tradição, compôs seus versos nas areias da praia. Nóbrega e Anchieta foram mediadores entre os dois povos, e da oferta da própria vida nasceu a trégua de Iperoig. Anchieta foi ordenado sacerdote três anos mais tarde e, por sua grande obra de evangelização, ficou conhecido como o Apóstolo do Brasil, sendo canonizado em 2014.

Mais de quatro séculos depois, na Irlanda do Norte, um conflito armado opunha os que desejavam a união com a Irlanda aos que queriam permanecer no Reino Unido, dividindo católicos e protestantes. Segundo levantamento da Universidade do Ulster, essa violência deixou mais de três mil e seiscentos mortos durante o período de 1969 a 1998. Em Belfast, o padre Alec Reid, redentorista, levava em segredo mensagens entre John Hume, líder nacionalista que defendia a via política, e Gerry Adams, presidente do Sinn Féin, partido ligado ao IRA, na esperança de pôr fim ao conflito. Em 19 de março de 1988, dois soldados britânicos entraram de carro num cortejo fúnebre republicano e foram atacados pela multidão. O padre Reid deitou-se entre eles no chão, tentando protegê-los, mas os soldados foram levados e mortos a tiros por membros do IRA. Ele tentou reanimar um deles com respiração boca a boca e, diante da gravidade dos ferimentos, deu-lhe os últimos sacramentos. A fotografia do sacerdote ajoelhado, com o rosto manchado pelo sangue do soldado, correu o mundo. Só anos depois se soube que ele levava no bolso um envelope com uma proposta de paz, também manchado de sangue. As conversas que ajudou a manter criaram, com o tempo, as condições para o cessar-fogo de 1994.

Em outubro de 1962, a crise dos mísseis de Cuba pôs o mundo à beira de uma guerra nuclear. Em 25 de outubro, São João XXIII, que havia aberto o Concílio Vaticano II duas semanas antes, dirigiu pela Rádio Vaticano uma mensagem aos governantes, entregue antes à embaixada dos Estados Unidos e aos representantes da União Soviética em Roma, em que suplicava que não ficassem surdos ao grito da humanidade e continuassem a dialogar. No dia seguinte, o apelo foi publicado no Pravda, jornal oficial do Partido Comunista soviético, e em 28 de outubro Nikita Kruschev anunciou a retirada dos mísseis. A mensagem do Papa ajudou a abrir um caminho para a paz e, seis meses depois, ele escreveu a encíclica Pacem in Terris, dirigida a todos os homens de boa vontade.

Nenhum desses homens dispunha de armas ou de poder político, mas todos possuíam algo muito superior — um profundo amor a Deus e às almas. São José de Anchieta ofereceu a própria vida como garantia da palavra dada, o padre Reid colocou o próprio corpo entre os soldados e a multidão, e São João XXIII empenhou a autoridade de sua palavra diante das duas maiores potências da época. Neles se cumpria a palavra do salmista: "Uns confiam nos carros e outros nos cavalos; nós, porém, somos fortes no nome do Senhor" (Sl 20,8). O sacerdote não age em nome próprio, mas como embaixador de Cristo. Põe-se à disposição de todos para comunicar as graças da Redenção e vai ao encontro dos que se tornaram inimigos para reconciliá-los com Deus e com os irmãos. Configurado a Cristo como Sacerdote e Vítima, pelo sacramento da Ordem, torna-se instrumento da sua reconciliação e paz no mundo. Foi o que vimos nesses testemunhos, pois não se limitaram a cumprir uma missão, mas, quando foi preciso, souberam oferecer-se em oblação de amor a Deus e às almas. Por isso temos todos necessidade de sacerdotes santos, conscientes da sua identidade e vocação, e os sacerdotes precisam de quem reze por eles para ajudá-los em sua missão.

Outubro é também o mês das missões. No penúltimo domingo, a Igreja celebra o Dia Mundial das Missões, instituído pelo Papa Pio XI há cem anos, e a Igreja no Brasil dedica todo o mês à animação missionária. Iniciamos o mês, no dia 1º de outubro, com a festa de Santa Teresinha do Menino Jesus, que Pio XI proclamou padroeira das missões ao lado de São Francisco Xavier. Ela nunca deixou o Carmelo de Lisieux e, ainda assim, ajudou com suas orações e sacrifícios os sacerdotes missionários. Aos catorze anos, em peregrinação a Roma, conviveu durante um mês com muitos sacerdotes e compreendeu, como ela mesma escreveu, que, se a sua sublime dignidade os eleva acima dos anjos, nem por isso deixam de ser homens fracos e frágeis. Por isso escreveu que entrara no Carmelo para salvar almas e, sobretudo, para rezar pelos sacerdotes. Santa Teresinha nos ensina que a missão não se mede pela distância percorrida, e que a oferta escondida do cotidiano, feita de orações e pequenos sacrifícios conhecidos somente por Deus, sustenta aqueles que amamos e, de modo especial, os sacerdotes.

Rezemos com a oração pelos sacerdotes tradicionalmente atribuída a Santa Teresinha:

Ó Jesus, Sacerdote Eterno, guardai os Vossos sacerdotes no Vosso sagrado Coração, onde nada de mal lhes possa acontecer, conservai imaculadas as suas mãos ungidas, que tocam todos os dias o Vosso sagrado Corpo.
Conservai imaculados os seus lábios, diariamente, tingidos com o Vosso Preciosíssimo Sangue.
Conservai os seus corações, que selastes com o sublime Sacramento da Ordem, puros e livres de todo apego terreno.
Que o Vosso amor os proteja e os preserve do contágio do mundo.
Abençoai os seus trabalhos apostólicos com abundantes frutos.
Fazei que as almas confiadas aos seus cuidados e direção sejam a sua alegria na Terra e formem no Céu a sua gloriosa e imperecível coroa. Amém.
Santa Teresinha do Menino Jesus, rogai por nós.

Neste mês de outubro, convido a todos a se unirem ao pedido do Papa Leão XIV, rezando diariamente o Rosário pela paz entre os povos em conflito. E, como intenção própria do nosso apostolado, rezemos pelos sacerdotes, para que sejam instrumentos de reconciliação onde houver divisão e ódio. Em Lourdes, enquanto Bernadette rezava o terço, a Virgem passava as contas com ela e unia-se à sua oração no Glória ao Pai. Assim também nós, ao rezar o Rosário, não rezamos sozinhos, mas com Maria, que nos conduz a dar glória a Deus. Rezar pela paz e por todos, ensina São Paulo, é bom e agradável a Deus (cf. 1Tm 2,1-3). Unamos ao Rosário, a cada dia, a oração pelos sacerdotes, e escolhamos um sacerdote para apresentá-lo a Deus, chamando-o pelo nome, até o fim de outubro. Com generosidade, ofereçamos a Santa Missa e a Comunhão por esta intenção. Como pediu o Santo Padre, acompanhemos a oração com gestos concretos de penitência e de misericórdia e com o compromisso de promover o diálogo e a reconciliação em nossas famílias e comunidades. E, como Santa Teresinha, ofereçamos um sacrifício escondido, um jejum ou uma renúncia que ninguém veja, pelos sacerdotes, para que sejam embaixadores da reconciliação e portadores da paz no mundo. A paz pedida pelo Papa não se constrói apenas nos grandes acordos entre as nações, mas começa em cada coração reconciliado com Deus. É essa paz que os sacerdotes oferecem hoje, muitas vezes em silêncio, no confessionário, no altar e junto às famílias e comunidades feridas pela divisão. O que vimos em Iperoig, em Belfast e em Roma continua a acontecer, todos os dias, no ministério de cada sacerdote fiel. Que a Virgem Maria, Rainha da Paz, interceda por nós e por todos os sacerdotes.

Fraternalmente em Cristo,

Diácono Mario Cardoso

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