Ao Povo de Deus e a todos os homens de boa vontade,
A perseguição é uma dor que pode se transformar em ferida, porque não vem por acaso: vem com rosto e com vontade. E por instinto fugimos dela. Mas há uma perseguição da qual não se pode fugir sem fugir de si mesmo: aquela cujo fundamento não é um desentendimento humano, e sim o ódio à verdade — o ódio a Deus. Foi dessa perseguição que Jesus falou aos seus, e foi por ela que os preparou: "Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que é seu; mas, porque não sois do mundo, mas eu vos escolhi do mundo, por isso o mundo vos odeia" (Jo 15,19). O sacerdote, configurado a Cristo pela ordenação sacerdotal, herda esse ódio de modo singular: nele o mundo reconhece, e rejeita, o próprio Cristo. Por isso perseguir o sacerdote nunca é só perseguir um homem — é tentar silenciar a Deus que age e fala através dele.
A perseguição foi assumindo, ao longo da história, formas reconhecíveis. Sob os governos autoritários e, no extremo oposto, sob os governos estruturalmente fracos, ela tomou o rosto de uma agressão externa — vinda de fora da Igreja, contra ela. Mas há ainda uma segunda forma, mais silenciosa e mais dolorosa: a perseguição interna, movida pelos próprios filhos da Igreja, que fere não como golpe de inimigo, mas como traição de irmão. A nossa história cristã guarda, desde o início, as duas faces dessa dor: Herodes, o poder que mata as crianças inocentes à procura do menino Jesus para defender o próprio trono, e Judas, um dos Doze, escolhido e chamado de amigo, que entrega com um beijo. Os nomes mudaram, mas as duas figuras nunca desapareceram — o perseguidor e o traidor continuam, em cada época, sob outras identidades.
Os governos autoritários são a forma mais aberta da perseguição: movidos por um desejo desmedido de poder, não toleram nenhuma consciência acima da sua. No Japão, ao longo de sucessivos governantes, o cristianismo foi proibido e perseguido brutalmente: os missionários foram expulsos e os sacerdotes, martirizados. Privados de todos os seus padres, os fiéis guardaram a fé escondidos por aproximadamente duzentos e cinquenta anos, à espera de um sacerdote que voltasse. No México, o presidente ateu Plutarco Elías Calles promulgou em 1926 uma lei que fez cumprir com rigor as medidas anticlericais: proibiu o uso de vestes religiosas em público, fechou escolas católicas, expulsou padres estrangeiros e confiscou bens da Igreja. Sob a perseguição, o número de sacerdotes em atividade caiu de 3.000 para apenas 334 licenciados para servir 15 milhões de habitantes; muitos foram fuzilados, entre eles o beato Miguel Pro, que morreu de braços abertos, gritando "Viva Cristo Rei!". Sob o comunismo ateu, que ao longo do século XX custou mais de cinquenta milhões de vidas, a fé foi alvo de um ódio próprio. Na União Soviética, segundo uma comissão do próprio governo russo, mais de duzentos mil sacerdotes e religiosos — em sua imensa maioria ortodoxos — foram mortos, na que foi talvez a maior perseguição religiosa em número de toda a história cristã. E esse mesmo ateísmo de Estado não ficou no passado. Na China, onde a era comunista já matou incontáveis sacerdotes e fiéis, os bispos e padres que permanecem fiéis a Roma são ainda hoje vigiados, presos e forçados ao desaparecimento por recusarem submeter a fé ao controle do Partido. Alguns rostos apenas, entre tantos que aqui não cabem: foram assim a Revolução Francesa, a Espanha de 1936 — sempre o mesmo poder que, ao querer ocupar o lugar de Deus, precisa primeiro calar quem fala em nome d'Ele. E convém estarmos atentos, porque esse poder raramente chega de uma só vez: começa de modo velado. Quando um governo passa a decidir quem pode pregar, a vigiar o que se ensina nos templos, a restringir o culto ou a submeter os pastores ao seu controle — às claras ou sob pretextos —, a perseguição já recomeçou, ainda que sem derramar sangue. E onde quer que se reconheçam esses sinais, é sinal também de que é hora de rezar.
Um Estado fraco e incapaz de proteger o seu povo também permite que se desenvolva a perseguição. Onde se abre esse vazio, o extremismo armado avança, persegue e mata com impunidade. Não é o Estado que persegue — é a ausência de Estado que permite a perseguição. É o que ocorre hoje na Nigéria, em Burkina Faso e no Mali, onde sacerdotes e fiéis são sequestrados e mortos por grupos extremistas diante da omissão de quem deveria protegê-los; e é também a tragédia do Oriente Médio, onde o colapso do Estado abriu caminho ao autodenominado Estado Islâmico, e os cristãos de comunidades milenares do Iraque e da Síria foram mortos, expulsos e forçados ao exílio. A fraqueza de um Estado expõe os mais indefesos: muitos não morrem porque um poder os mirou, mas porque nenhum poder os protegeu. Foi assim que, em junho de 2026, Dom Osório Citora Afonso, bispo em Moçambique, foi morto a tiros dentro da própria residência — um crime até hoje sem explicação, num país que não soube proteger nem os seus pastores. Por isso, diante do que nenhuma força terrena consegue impedir, roguemos a Deus que defenda, ampare e guie os passos dos que estão sem proteção.
Não esqueçamos esta verdade: a Igreja é a nossa Mãe, e como Mãe é santa — gera todos os seus filhos para Deus e a todos alimenta com os sacramentos. Alguns deles, porém, escolheram ser joio em vez de trigo, trevas em vez de luz, e de dentro da própria Igreja passaram, no dia a dia, a perseguir e oprimir os seus irmãos. Por isso é preciso dizer com clareza: não é a Igreja que persegue, mas alguns dos seus filhos que traem a própria Mãe. Assim nasce a perseguição mais silenciosa e mais amarga, a que não aparece em estatística alguma: a do sacerdote caluniado, incompreendido ou isolado pelos próprios irmãos, às vezes por permanecer fiel, às vezes por inveja, às vezes sem motivo aparente. Foi o que fez Judas: não um estranho, mas um dos Doze, chamado à intimidade, que partilhava a mesa com Jesus e ainda assim o entregou. Essa é a ferida que não vem de fora, mas de dentro — não da espada do inimigo, mas do beijo do amigo.
Diante de tudo isso, não basta a indignação. A nossa resposta deve ser sempre a oração. O que o Papa Leão XIV disse dos mártires do nosso tempo vale para todos os sacerdotes perseguidos: anunciaram o Evangelho 'sem jamais usar as armas da força e da violência, mas abraçando a força frágil e gentil do Evangelho' (Homilia na Missa dos mártires e testemunhas da fé do Século XXI, em 14 de setembro de 2025, na Basílica de São Paulo Fora dos Muros). Com generosidade, rezemos ao Senhor por estes nossos irmãos:
Pai Santo, em nome de Jesus, nós vos louvamos e bendizemos pela vida de cada sacerdote que enviastes ao mundo para curar as nossas feridas e nos reconciliar convosco. Diante de Jesus, nosso Redentor, nós vos pedimos: protegei os vossos servos, livrai-os das mãos dos seus inimigos, fortalecei-os na sua vocação e concedei a graça da conversão aos sacerdotes que dela necessitam. Amém.
Neste mês, ofereçamos as nossas orações, pequenos sacrifícios e Missas por esses pastores. Que a nossa intercessão seja um abraço invisível em torno de cada sacerdote que, neste exato momento, anuncia Cristo num lugar onde isso pode custar-lhe a liberdade ou a vida. Acompanhemos os sacerdotes na oração, para que perseverem na fidelidade e no amor a Cristo, à Igreja e aos irmãos, e que o seu testemunho dê fruto na vinha do Senhor.
Fraternalmente em Cristo,
Diácono Mario Cardoso


