Numerosas e santas vocações sacerdotais

Carta de Abertura de agosto: a vocação como dom de Deus, a família como primeiro seminário e o testemunho das mães de Lu Monferrato, com 323 vocações.
Numerosas e santas vocações sacerdotais

Ao Povo de Deus e a todos os homens de boa vontade,

Juntos, neste mês de agosto, elevemos nossas preces a Deus para que conceda à sua Igreja o dom de numerosas e santas vocações sacerdotais. Agosto é o Mês Vocacional para a Igreja no Brasil, e cada domingo é dedicado a uma vocação: o primeiro domingo, aos ministros ordenados — bispos, presbíteros e diáconos. Essa é a intenção que o nosso Apostolado Oblatos de Cristo Redentor carrega o ano inteiro e que agora se torna a oração de todos nós. E recordemos: a vocação é dom de Deus, dom que o próprio Cristo manda pedir, e que a Igreja pede com confiança e perseverança.

Jesus percorreu todas as cidades e povoados; viu as multidões cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor, e compadeceu-se delas. Então disse aos discípulos: "A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos" (Mt 9,37, tradução da CNBB). Ele não manda recrutar, nem convencer: manda pedir ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita (cf. Mt 9,38). Aqui está a primazia de Deus: é Ele quem escolhe, Ele quem chama, Ele quem consagra e envia em missão.

Se a vocação fosse conquista, o primeiro a conquistá-la teria sido Cristo. Não foi assim com Ele. A Carta aos Hebreus ensina que ninguém deve atribuir-se a honra do sacerdócio, senão aquele que foi chamado por Deus, como Aarão; e que também Cristo não se atribuiu a si mesmo a honra de ser sumo sacerdote, pois foi o Pai quem lhe disse: "Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei", e ainda: "Tu és sacerdote para sempre, na ordem de Melquisedec" (Hb 5,4-6, tradução da CNBB). Comentando esta página no livro Jesus Cristo, ideal do sacerdote, o beato Columba Marmion observa que o sacerdócio é de tal grandeza que nem a humanidade de Cristo tomou para si essa dignidade. Se o próprio Filho recebeu do Pai o seu sacerdócio, nenhum homem o toma por conta própria. A Igreja não fabrica sacerdotes: reconhece a vocação, forma e examina o candidato, e então o bispo, em nome de Cristo, pela imposição das mãos e pela oração consecratória, o consagra ao ministério ordenado.

O Concílio Vaticano II, no decreto Optatam Totius (28 de outubro de 1965), ensina que o dever de fomentar as vocações pertence a toda a comunidade cristã, e que para isso concorrem as famílias que, animadas pelo espírito de fé, de caridade e de piedade, são "como que o primeiro seminário". O lar onde se vive o amor mútuo e se aprendem as virtudes forma homens e mulheres capazes de uma entrega inteira — vidas que redundam na glória de Deus e no bem da Igreja e dos homens. Nenhuma pastoral vocacional supre o que a casa não deu. O seminário existe para formar sacerdotes. Mas não se forma um sacerdote sobre um homem que ninguém formou. A graça não substitui a natureza, aperfeiçoa-a — e trabalha sobre o que a família entregou, seja um alicerce, seja uma ruína a reconstruir.

O Concílio não descreve um ideal distante. Em 1881, na aldeia de Lu Monferrato, no norte da Itália, algumas mães de família tinham no coração o desejo de ver um filho tornar-se sacerdote, ou uma filha entregar-se inteiramente ao Senhor. E tomaram uma decisão simples: passaram a se reunir às terças-feiras para a adoração do Santíssimo, guiadas pelo pároco, e a pedir vocações; no primeiro domingo de cada mês, comungavam e rezavam juntas com essa intenção. A oração que rezavam pedia o filho sacerdote, mas começava por elas mesmas — pelo compromisso de viver como boas cristãs e de conduzir os filhos ao bem. Segundo a Congregação para o Clero, daquele vilarejo de poucos milhares de habitantes saíram 323 vocações, entre sacerdotes, religiosos e religiosas, espalhadas por 41 congregações. Em algumas casas, três ou quatro. Na família Rinaldi foram sete: duas filhas partiram missionárias para Santo Domingo e cinco filhos tornaram-se sacerdotes salesianos, entre eles Filippo, terceiro sucessor de Dom Bosco, beatificado em 1990.

É testemunho de que a família harmoniosa, que reza junta e não fecha ao filho nenhuma porta — nem a do sacerdócio, nem a da consagração, quando o mundo só lhe oferece profissões —, prepara o terreno em que o chamado é ouvido. Há famílias boas em que ninguém é contra: apenas nunca se falou disso em casa, e o filho cresce sabendo que pode ser tudo, menos sacerdote ou consagrado. Não porque lhe proibiram, mas porque ninguém lhe disse que aquilo também era um futuro, tão belo quanto os outros. Deus chama quem quer, e nada pode obrigá-Lo; mas Ele se agrada de conceder o que lhe pedimos, e essas mães souberam pedir por décadas, sem exigir prazo nem resposta.

Todo batizado é membro do Corpo místico de Cristo, e esse Corpo é sacerdotal: pelo Batismo, o fiel participa do sacerdócio comum, distinto do sacerdócio ministerial. Por isso todo o Povo de Deus é chamado a rezar e a trabalhar incansavelmente pelas vocações sacerdotais, como recorda São João Paulo II na exortação Pastores Dabo Vobis. Há cristãos generosos que oferecem seu tempo aos trabalhos pastorais e seus bens à causa da evangelização. Poucos se preparam para o dia em que Deus chamar um filho. Não se trata de doar os filhos, como se fossem nossos: eles são de Deus antes de serem nossos. Trata-se de consentir — de não reter quem Ele chamar, seja ao ministério ordenado, seja à vida consagrada. Era o que dizia a fé das famílias de Lu Monferrato, recordada por Filippo Rinaldi: o Senhor nos deu filhos, e se Ele os chama, não podemos dizer não.

Convém dizer o óbvio. Cristo redimiu o mundo de uma vez por todas, e quis que essa redenção chegasse a cada um pelas mãos de homens escolhidos. Sem sacerdote não há Missa, e sem Missa não há Eucaristia. Sem sacerdote não há absolvição, e o penitente fica sem quem lhe diga, em nome de Cristo, que os seus pecados estão perdoados. Sem sacerdote não há Unção dos Enfermos, e alguém enfrenta a doença grave sem a graça que alivia e fortalece. Nenhum leigo devoto, nenhuma comunidade fervorosa, nenhuma estrutura pastoral supre isso — porque não se trata de organização, mas de um poder que Cristo confiou a quem Ele mesmo consagra. Quando pedimos sacerdotes, não pedimos operários para uma obra que poderia ser feita de outro modo. Pedimos que as graças da redenção continuem a alcançar as almas.

Os números publicados pela Santa Sé em março de 2026 dizem o tamanho do pedido. Segundo o Annuarium Statisticum Ecclesiae referente a 2024, os candidatos ao sacerdócio no mundo passaram de 106.495 em 2023 para 103.604 em 2024 — uma queda de 2,72% em um único ano, que atinge todos os continentes, exceto a África. E na América do Sul, nossa casa, cada padre atende mais de sete mil e seiscentos católicos.

Os números descrevem o que Cristo constatou: os trabalhadores continuam poucos.

Em dezembro de 2025, ao completarem-se sessenta anos da Optatam Totius e da Presbyterorum Ordinis, o Papa Leão XIV dirigiu a todo o Povo de Deus a Carta Apostólica Uma fidelidade que gera futuro. Nela espera um renovado Pentecostes vocacional dentro da Igreja e pede ao Senhor "santas, numerosas e perseverantes vocações" ao sacerdócio ministerial. É a intenção deste mês, dita pelo Sucessor de Pedro.

No dia 4 de agosto, a Igreja celebra a memória de São João Maria Vianney, o Cura d'Ars. Foi a ele, e à Virgem Imaculada, Mãe do Bom Conselho, que o Papa Leão XIV confiou os seminaristas, os diáconos e os presbíteros ao encerrar a Carta, lembrando o modo como o Santo Cura definia o próprio ministério: o sacerdócio é o amor do Coração de Jesus. Afastaram-no do Seminário Maior de Lyon porque não acompanhava o latim. Ordenado, não lhe confiaram o confessionário. Mandaram-no para Ars por julgarem que suas limitações não serviriam a uma paróquia grande. Foi ali que gastou a vida inteira. Deus fez dele o padroeiro dos sacerdotes — não pelo que sofreu, mas pelo grande amor com que serviu a Deus e às almas.

Peçamos a São João Maria Vianney que interceda por cada sacerdote e obtenha para a Igreja o dom de numerosas e santas vocações sacerdotais.

Divino Redentor, que chamas quem queres e sustentas quem chamas, pela intercessão de São João Maria Vianney, concede à tua Igreja um renovado Pentecostes vocacional: o dom de numerosas e santas vocações sacerdotais. Faze de cada lar cristão o primeiro seminário; guarda os que já disseram sim e envolve-os na tua misericórdia, sustenta os que se preparam e dá coragem aos que ainda hesitam. Que nenhum chamado teu se perca por nossa falta de cuidado e de oração. Amém.

Com generosidade, ofereçamos a Santa Missa e a Comunhão pelas vocações sacerdotais. Rezemos todos os dias a oração deste mês — junto ao Rosário, ao Terço da Misericórdia, à Liturgia das Horas, ou sozinha, como cada um souber e puder. Escolhamos um seminarista, um diácono, um presbítero ou um bispo e rezemos por ele pelo nome, até o fim de agosto. Ofereçamos um sacrifício escondido — um jejum, uma renúncia que ninguém veja — por aqueles que hoje hesitam diante do chamado. E os pais, que nunca ponham diante de um filho o obstáculo que Deus não pôs: se Ele chamar, que saibam dizer sim. Semeemos com orações e pequenos sacrifícios, e deixemos que amadureça o que plantamos. Um semeia e outro colhe, disse o Senhor (cf. Jo 4,37). Talvez não vejamos a colheita. Mas Deus não se esquece de quem semeia, e dará a sua graça a seu tempo.

Fraternalmente em Cristo,

Diácono Mario Cardoso